A "performance" está vencendo a informação?
Atualmente, um fenômeno tem ganhado força nas redes sociais, principalmente entre adolescentes: a ressignificação da palavra “performar”. Originalmente, o termo está relacionado ao teatro e à arte da performance, sendo compreendido como “uma construção física e mental que o artista executa em um determinado tempo e espaço, diante de uma audiência”, como assim define Marina Abramović. No entanto, esse conceito passou a adquirir novos significados em plataformas como o X (antigo Twitter) e o TikTok, onde muitas pessoas constroem cuidadosamente a própria imagem para se identificar com um grupo ao qual pertencem — ou desejam pertencer — por meio de símbolos, referências culturais, obras, comportamentos e estéticas.
Agora, você pode estar pensando: “Tá bom, mas qual é o problema nisso?”. Em muitos casos, não há nenhum problema. Ser considerado uma pessoa “performática” pode representar apenas uma forma de expressão ou de construção da própria identidade. A questão surge quando essa performance deixa de ser uma manifestação genuína e passa a ser apenas uma tentativa de parecer algo que não é, adotando comportamentos ou defendendo causas sem compreender sua história, seu contexto ou sua importância. Um exemplo simples é quando alguém publica que está lendo determinado livro apenas para transmitir uma imagem de intelectualidade ou de alguém “cool”, mesmo sem demonstrar qualquer interesse pelas discussões importantes que aquela obra propõe.
Esse comportamento pode ser observado em uma trend recente do TikTok. Nela, adolescentes — em sua maioria — publicam uma foto própria e, em seguida, imagens de mulheres, que geralmente são afegãs, acompanhadas de um trecho do discurso feito por Angelina Jolie ao receber o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, em 2013. No trecho, ela afirma:
“And why across the world there's a woman just like me, with the same abilities and the same desires, same work ethic and love for her family, who would most likely make better films, and better speeches — only she sits in a refugee camp.
She has no voice.”
A trend em si não apresenta nenhum problema, muito pelo contrário! Dar visibilidade à realidade enfrentada por milhões de mulheres é de suma importância. O problema surge quando esse tipo de publicação se limita a acompanhar uma tendência passageira, sem gerar reflexão ou incentivar ações concretas. Não basta apenas compartilhar um vídeo: é preciso buscar informações, compreender o contexto histórico e político, conversar sobre o assunto e apoiar iniciativas que realmente façam diferença. Ao ler alguns comentários nessas publicações, tenho a impressão de que parte das pessoas não está levando essa pauta com a seriedade que ela exige, mas apenas participando da trend como mais uma forma de “performar” consciência social.
Como sociedade, temos a responsabilidade de não permanecer indiferentes diante dessas violações de direitos humanos. Faço minhas as palavras da atriz Sheryl Lee Ralph: “Just because you have rights today, does not mean you will have rights tomorrow.” (“Só porque você tem direitos hoje, não significa que os terá amanhã.”)
Essa frase nos lembra que direitos nunca são garantias permanentes e que sua preservação depende da vigilância e da mobilização da sociedade. Precisamos dar voz às mulheres do Afeganistão, que, desde o retorno do Talibã ao poder, foram privadas de diversos direitos fundamentais. Meninas foram proibidas de frequentar o ensino secundário e superior, mulheres foram excluídas de seus empregos e de diversos espaços públicos, além da imposição de restrições severas à liberdade de circulação e de expressão. Também existem leis que fragilizam a proteção de meninas contra casamentos precoces e dificultam a responsabilização por diferentes formas de violência doméstica.
No Irã, mulheres enfrentam restrições relacionadas ao uso obrigatório do véu, limitações à liberdade de expressão e forte repressão estatal contra quem protesta por seus direitos. Já na Somália, a mutilação genital feminina continua sendo amplamente praticada, sobretudo em meninas, apesar das inúmeras campanhas internacionais para sua erradicação. Embora seja frequentemente justificada como tradição cultural, trata-se de uma grave violação dos direitos humanos.
Muitas pessoas acreditam que não há nada que a população possa fazer para combater essas injustiças. No entanto, essa ideia é equivocada. Informar-se, dar visibilidade, compartilhar conteúdos confiáveis, apoiar organizações comprometidas com a defesa dos direitos das mulheres e pressionar governos e organismos internacionais são atitudes que contribuem para manter essas pautas em evidência e fortalecer quem luta diariamente por mudanças.
Por isso, reuni alguns abaixo-assinados e campanhas internacionais promovidos por organizações reconhecidas mundialmente, como a Amnesty International e a UN Women. Essas iniciativas buscam pressionar governos e a comunidade internacional a combater leis discriminatórias e outras formas de violência e opressão contra mulheres e meninas. Afinal, defender os direitos das mulheres não deve ser apenas uma trend em redes sociais, mas um compromisso permanente de todos nós.




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